Epistemologia Brasilis | Crítica de “Cartas”

Foto: Andrea Rego Barros

Por Luiz Diego Garcia
Recife, Agosto de 2019

Epistemologia Brasilis

“Escrever, para mim, é um meio, o único de que disponho, de abrir uma clareira nas trevas que me cercam.”
Osman Lins

“[…] em fases apocalípticas o artista se deveria colocar a serviço daquele que sofre, pois de que outras armas poderia ele dispor?”
Hermilo Borba Filho

Num livro que aborda o ofício da escrita, ‘Guerra Sem Testemunhas’, Osman Lins traça reflexões e confissões sobre a arte literária; sendo um dos mais renomados escritores nacionais, Osman tem aqui suas cartas trocadas com Hermilo Borba Filho – escritor, crítico literário, jornalista, dramaturgo, diretor, teatrólogo – expostas numa cena que ao passo que se torna uma investigação poético-política de um tempo passado, também se propõe a lançar luz sobre questões atemporais e sombrias de um Brasil que se vê fatigado e sedento por arte. Ao tratar de figuras não tão esmiuçadamente conhecidas pelo grande público, o espetáculo talvez se distanciasse do objetivo político-social ao qual se propunha, mas faz a curva ao deitar sobre uma cama de referências atuais e consagradas da nossa história, tendo em sua abertura um redigir contextualizado de sua dramaturgia.

É desse mote que parte a encenação de Luiz Manuel para o espetáculo “Cartas”, do Coletivo Caverna. A peça traz à cena uma dúzia de figuras numa polifonia rica, mas é em seu cerne que se encontram Hermilo e Osman num envelope preciso que, aqui, aumenta a visão periférica de capítulos tenebrosos vividos quase initerruptamente pelo Brasil. Tanto a ditadura militar e seu lastro de sangue nas páginas da história quanto o ressurgimento de uma extrema direita conservadora que flerta com ideais fascistas na atual democracia manca que desgoverna o país são abordados ao longo do trabalho que conta com o árduo labor de três atores revestidos de domínio cênico e versatilidade. “Cartas” é, antes de tudo, um espetáculo de atores. Fabiana Pirro, Cláudio Lira e Paulo de Pontes, embebidos de clareza e avidez, promovem ao longo dos preciosos minutos um desmatar de trevas, cercando-se de ferramentas propulsoras de questionamentos pungentes a cerca do fazer artístico-literário que desafia o espectador a acompanhar tal ebulição das mentes representadas em cena. Não é a toa que ao flertar com o biodrama e a narração de contextos atuais/pessoais de seu elenco, “Cartas” encontra seus momentos mais inspirados.

São momentos minuciosos de brilhantismo em que o contraste do neutro figurino com a exuberante cenografia/iluminação causam no público trocas de olhares. Diversos momentos são intermediados por telas de celulares e câmeras, num balé digital conduzido com rigor, qualidade e apreço poético pela narração da história proposta. Válido registrar que a máscara usada por Fabiana Pirro em determinada cena é um deleite; que quando somos defrontados com uma pulverização tóxica sobre um jantar o banho que se toma é futuramente irreversível; que o estouro de Cláudio Lira numa sabatina sobre literatura talvez seja a cena mais forte do espetáculo por revelar tamanha precisão e domínio do texto e que, entrementes, na valsa cênica sobre a história brasileira, o trabalho de Paulo de Pontes se faz irretocável. Pontes abrange ao longo de “Cartas” um escopo de interpretação admirável por vezes tangendo o assustador, mas nunca o amedrontado. A comunhão corpo-voz está presente em todo o elenco, e há de se notar que os olhares corajosos devem ser a fagulha mais encalmadiça do espetáculo.

“Cartas” propõe o pensar enquanto ato coletivo a partir do ato de escrever, promove uma cultura de resistência e um abrir de clareiras, resiste livre e caminha em direção a arte como solução possível, acerta em cheio e enriquece o teatro ao rascunhar no tempo a necessidade da comunicação humana a partir da comunhão de ideias.

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